Não senti medo se sofrer que não estava acostumada.Não senti medo de me conhecer e me esquecer outra vez.Não senti medo de sacrificar a amizade. Não senti medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mudasse de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Não senti medo se o telefone tosasse ou se não tocasse. Não senti medo de inventar desculpa para me ver livre do medo. Não senti medo de me sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não senti medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve.
Não senti medo de me apaixonar e não prever o que poderá sumir, o que poderá desaparecer. Não senti medo de que ele seja um canalha, medo de seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em único homem, todo um pouco por dia. Não senti medo do imprevisível, que foi planejado. Não senti medo de que ele mordia meus lábios e provasse o sangue.
Não senti medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Não senti medo de que ele fosse o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado.. Não senti medo de me ultrapassar e esperar por anos, até que antes disso e depois disso possam se coincidir novamente. Não senti medo de largar o tédio, nem de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que queria reparti-lo com ninguém, além dele. Não senti medo de que ele fosse melhor do que as suas respostas, pior do do que suas dúvidas. Não senti medo de que ele não fosse vulgar para se escorraçar, mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele acorde ao escutar a minha voz. Não senti medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Não senti medo de ser destruída, aniquilada, devastada, e não reclamar da beleza das ruínas. Não senti medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Tão pouco de não ser interessante o suficiente para prender a atenção dele. Não senti medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Não senti medo que ele não precisasse de mim. Tão pouco de ser uma brincadeira dele quando falava sério ou que bancava o sério quando fez uma brincadeira. Não senti medo dos cheiros dos travesseiros, cheiro das roupas, dos cabelos, de não respirar sem recuar. Não senti medo que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo.Não senti medo de machucar, ferir, agredir para não ser agredida nem machucada. Não senti medo de passar felicidade sem reconhecê-la, tão pouco medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Não senti medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Não senti medo de enlouquecer sozinha.
