Eu sabia, que Corsário tinha problemas, muitos problemas. Então compreendi, que um final de semana com ele na praia, bastaria prá eu esperar a morte dele chegar. Estamos com os dias contados. Penso ás vezes que não são 6 anos, nem 6 meses, nem 6 dias, talvez 6 horas, ou então 6 minutos que este momento chegará.
O feriadão de 4 dias na praia, se resumiu em 2.
Tudo que havíamos nos prometido e que ninguém prometeu...acabou por efeito da dor, da tristeza, da realidade, da miséria e da dor. Eu sei que ele tentou. Eu não, ficava fria, congelada, não estava preparada. Mas quem ficou calada, desta vez foi eu.
Esperei de tarde ele retornar. Ouvi seus passos na grama, ele tinha saído. Foi em algum lugar. Tossia muito.
Dormi. Nosso quarto estava lindo, perfeito, e melhor ainda com o nosso cheiro.
Olhei pela janela e vi que o seu olhar era tão escuro e caminhava passos solenes de encontro á rua, não em direção ao mar.
Fiquei sozinha o resto da tarde.
Levantei. Não ouvi ele chegar. Quiz tomar um banho.
Entrei na cozinha e sala, interligados como quase todas as casas de praia, e vi ele sentado no sofá. TOSSIA MUITO.
Fui ao encontro dele. Beijei-o. O rosto dele parecia que ía pegar fogo. Me afastei.
Decidi tomar banho. Chorei muito no banho. Acho que ele não percebeu. Ele não me procurou. Pedi prá ele que me alcançasse o meu creme que havia esquecido, ele trouxe, abri a porta. Ele ficou parado. Não o convidei para entrar. Eu estava nua e nua fiquei até passar o creme. Pensei em chamá-lo para me ajudar. Não.
Isso não aconteceu. E sentado, na mesma posição ele estava, quando saí do banho, linda, cheirosa, cheia de esperança ainda. INGÊNUA!
Disse que eu ía no mercado e fui.Ele ficou.
No mercado, entrei, chamei atenção de muita gente. Dois homens me olharam fixamente, me comendo pelos olhos. Eu estava com cabelos soltos, um lenço colorido indiano por cima dos cabelos, por causa do vento, um casaco de tricô e uma calça jeans bem apertada. Um deles disse: "GATONA", eu sorri. Pensei que se eu quisesse fazer a festa naquela noite que se aproximava, tava na mão. Dois lobos do mar. Bonitos por sinal, saudáveis, me pareciam. Diferentes do meu Corsário.
Fui ao caixa, eles atrás de mim. Um deles, passou a mão na minha bunda. Fiz de conta que não percebi. Paguei e fui caminhando, sentindo o vento me levar e pensando se Corsário estaria ali em casa, quando eu
chegasse.
Realmente estava daquele jeito que eu deixei ele em casa. No mesmo sofá, olhando o mesmo canal e talvez o mundo que ele estava foi interrompido quando eu cheguei com as compras.
Jantamos. Perguntei se ele não ía tomar banho. Ele me sorriu daquele jeito que não sei descrever e disse que não, que queria ficar com meu cheiro.
Tomei muito vinho e ele guaraná.
Tomei muito vinho e ele remédios.
Tomei muito sangue amargo e ele febre alta.
Quando ele tomou o último, eu pensei: "Nada mais vai acontecer."
Ele saiu pela porta, como um risco, inesperadamente, noite escura e eu ali.
Aguardei a chegada dele, tomando o meu vinho.
Quando ele chegou, não me olhava. Pensei. "Ele foi usar".
Arrumamos a cozinha. Ele foi deitar. Não no nosso quarto, mas no quarto que ele tinha na casa.
Entendi. NADA MAIS VAI ACONTECER.
Recolhi-me, dei boa noite. Apaguei as luzes e fui para o "nosso" quarto.
"MAS DEIXE AS LUZES ACESAS, AGORA..."(LEGIÃO).
A noite foi com febre alta, eu com a minha...meu corpo suado, molhando a cama de tristeza, dor, solidão e incertezas, sofri muito...COMO EU ESTOU CHORANDO, MEUS OLHOS DOEM...ele, com a febre doentia ardente, doente, tristeza do passado, sem poder me tocar, sem poder falar. Eu não consegui. Só pensava em mim.
Deveria ter feito algo, ir ao encontro dele, abraçá-lo, beijá-lo. Não consegui, minha febre de egoísmo me consumia.
Passei a noite assim: Dormia, acordava, vomitava, vomitei todo o vinho de sangue que tomei.
Seis horas da manhã, fui olhar o mar.
Minhas lágrimas salgadas, pesavam no meu rosto. O sol se levantava, tão imponente, tão vigoroso, que me dava medo.
Na minha mente, pensava que não era justo, o Sol levantar-se daquele jeito...ele tinha que ir embora, deixar que a noite continuasse. Ele não podia clarear o dia. Mas não, lá estava o Sol, o Rei, Rei do Abismo, iluminando tudo, fazendo doer meus olhos, secando minhas lágrimas, deixando que as gaivotas começassem novamente voar sobre os meus pés.
De repente, uma nuvem escura, cai sobre a minha cabeça, e na mistura do sol no horizonte, e a nuvem na minha cabeça, começou a chover. Meu lenço, molhou rapidamente, meu pijama ficou transparente e mostrava minha calcinha.
Fui para casa e a nuvem escura de chuva me acompanhando.
Ele, Corsário sentando na frente de casa, olhou-me admirado e nada disse.
Eu o beijei, disse Bom dia.
Disse que tinha passado mal a noite inteira, ele só me olhou.
Fui me trocar, arrumei a cama, não queria ficar mais ali.
Tomei a decisão. Vou embora.
Disse prá ele. Tbm falei que se ele quisesse ficar ali, seria bom. Na realidade, eu queria ir sozinha.
Não. Ele arrumou as coisas e veio comigo.
E no caminho de volta, mais silêncio, mais dor, mais tosse mais febre.
Falei, do ar, das montanhas, do sol e do mar.
Ele concordava com a cabeça.
Corsário está morrendo, só eu não sei.
Senti seu corpo dolorido e cansado, triste, podre. Nada mais a fazer.
Deixei ele sentado na área da casa dele. E Sentado ele ficou. Talvez esteja até agora.
Vim prá casa, há dois dias que choro sem parar.Que escuto músicas da Legião, que tendo sorrir.
Meus filhos, me deixaram, foram prá casa do pai.
Meu único amigo, inseparável, meu cachorrinho Lulu, sempre ao meu lado, enquanto choro e digito.
SOBRE LULU TAMBÉM VOU FALAR.
Amanhã começa tudo de novo. Trabalho, faculdade e tenho que começar.
CORSÁRIO...não sei, não sei, não sei.
SOMOS TÃO JOVENS.
AMO CORSÁRIO, SOFRO POR ELE, SOFRO COM ELE.
E hoje, a manhã está tão cinza." A TEMPESTADE QUE CHEGA LÁ É DA COR DOS SEUS OLHOS CASTANHOS"